O que é o refluxo e por que acontece?
O refluxo gastroesofágico ocorre quando o conteúdo do estômago retorna ao esôfago. Em condições normais, um esfíncter o esfíncter esofagiano inferior impede esse retorno. Quando ele não funciona adequadamente, o ácido gástrico entra em contato com a mucosa esofágica, que não tem proteção para isso, causando sintomas e, em alguns casos, lesões.
A Doença do Refluxo Gastroesofágico (DRGE) é diagnosticada quando esse refluxo causa sintomas que afetam a qualidade de vida ou quando há evidência de lesão no esôfago. Não é qualquer azia ocasional após uma refeição pesada é uma condição crônica com critérios diagnósticos definidos.
Nem todo refluxo causa azia
Os sintomas típicos são azia (queimação retroesternal) e regurgitação. Mas existe um grupo significativo de pacientes com apresentações atípicas que frequentemente não são relacionadas ao refluxo:
- Tosse crônica sem causa respiratória identificada.
- Rouquidão persistente, especialmente pela manhã.
- Sensação de globo ‘algo preso na garganta’.
- Laringite crônica.
- Erosão dentária por ácido.
- Dor torácica não cardíaca que pode mimetizar angina e gerar investigações extensas até se chegar ao diagnóstico correto.
Esses sintomas atípicos podem ocorrer isoladamente, sem nenhuma azia, o que torna o diagnóstico mais desafiador.
Quando é necessário fazer endoscopia?
A endoscopia digestiva alta não é obrigatória para iniciar o tratamento do refluxo típico não complicado especialmente em pacientes jovens, sem sinais de alarme. Mas ela está indicada em algumas situações importantes:
- Sinais de alarme: disfagia (dificuldade para engolir), odinofagia (dor ao engolir), perda de peso não intencional, vômitos persistentes ou sangramento.
- Sintomas típicos sem resposta adequada ao tratamento com inibidor de bomba de prótons (IBP) após 4 a 8 semanas.
- Uso prolongado de IBP sem diagnóstico endoscópico prévio.
- Rastreamento de Esôfago de Barrett em pacientes de risco homens com mais de 50 anos, obesidade central, sintomas de refluxo de longa data, histórico familiar de adenocarcinoma esofágico.
O que é o Esôfago de Barrett e por que é importante?
O Esôfago de Barrett é uma condição em que a mucosa normal do esôfago é substituída por um tipo de tecido adaptado ao ambiente ácido é uma resposta do organismo ao dano crônico pelo refluxo. Essa mudança é clinicamente relevante porque aumenta o risco de adenocarcinoma de esôfago, um tipo de câncer com prognóstico reservado quando diagnosticado em estágios avançados.
Nem todo paciente com refluxo desenvolve Barrett, e nem todo Barrett evolui para câncer. Mas o diagnóstico precoce por endoscopia permite vigilância endoscópica programada, que é o que muda o desfecho desses pacientes.
O uso do IBP precisa ser reavaliado
Os inibidores de bomba de prótons (omeprazol, pantoprazol, esomeprazol, rabeprazol) são medicamentos seguros e eficazes para o tratamento do refluxo. Mas têm sido usados de forma indiscriminada muitas vezes de forma contínua, indefinida, sem diagnóstico preciso e sem reavaliação periódica.
O uso prolongado sem indicação precisa não é inofensivo. Pode estar associado a menor absorção de magnésio, vitamina B12 e cálcio; maior suscetibilidade a algumas infecções intestinais; e interações medicamentosas. Isso não significa que o IBP deva ser evitado quando indicado significa que a indicação deve ser reavaliada periodicamente e que a dose mínima eficaz é sempre o objetivo.
Mudanças de estilo de vida: o que realmente ajuda
Algumas orientações têm evidência consistente na melhora dos sintomas de refluxo:
- Elevação da cabeceira da cama (não só mais travesseiros a inclinação precisa partir do colchão) para pacientes com sintomas noturnos.
- Redução do peso corporal em pacientes com sobrepeso ou obesidade a gordura abdominal aumenta a pressão intragástrica e favorece o refluxo.
- Evitar deitar imediatamente após as refeições aguardar pelo menos 2 a 3 horas.
- Redução ou eliminação do tabagismo e do consumo de álcool.
Outros fatores como café, chocolate, alimentos gordurosos e cítricos têm evidência mais inconsistente podem piorar os sintomas em algumas pessoas, mas não em todas. A orientação ideal é individualizada, não uma lista genérica de proibições.

