Doença celíaca não é ‘intolerância ao glúten’
Essa distinção é importante. A doença celíaca é uma condição autoimune não uma intolerância, não uma alergia, não uma sensibilidade. Quando uma pessoa com celíaca ingere glúten (proteína presente no trigo, centeio e cevada), o sistema imune desencadeia uma resposta que danifica a mucosa do intestino delgado, especificamente as vilosidades estruturas responsáveis pela absorção de nutrientes.
Essa destruição da mucosa pode levar a deficiências nutricionais graves (ferro, vitamina B12, ácido fólico, vitamina D, zinco), mesmo que a pessoa não tenha diarreia ou emagrecimento evidentes. A apresentação clínica é muito variável, o que explica por que o diagnóstico frequentemente demora anos.
Como a doença celíaca se apresenta?
A forma clássica criança com diarreia, barriga distendida e baixo peso existe, mas não é a mais comum nos consultórios de adultos. Na prática, as apresentações são muito mais diversas:
- Anemia ferropriva resistente à suplementação oral.
- Osteoporose precoce, especialmente sem outros fatores de risco.
- Infertilidade ou abortos de repetição.
- Dermatite herpetiforme erupção cutânea bolhosa e pruriginosa.
- Ataxia, neuropatia periférica e outras manifestações neurológicas.
- Transaminases elevadas sem causa aparente.
- Aftas orais recorrentes.
Sintomas digestivos como inchaço, dor abdominal e alteração do hábito intestinal também ocorrem, mas podem mimetizar a Síndrome do Intestino Irritável e muitos pacientes celíacos passam anos com esse diagnóstico antes de chegar à causa real.
Como é o diagnóstico?
O diagnóstico da doença celíaca exige uma sequência específica e precisa ser feito antes de qualquer restrição de glúten. Isso é fundamental: eliminar o glúten antes dos exames normaliza os resultados e inviabiliza o diagnóstico correto.
A investigação inclui:
- Sorologia: anticorpos anti-transglutaminase tecidual IgA (anti-tTG IgA) com dosagem concomitante de IgA total (para excluir deficiência de IgA, que falseia o resultado).
- Se a sorologia for positiva: biópsia duodenal por endoscopia digestiva alta, que é o padrão-ouro para confirmação.
- Genotipagem HLA-DQ2/DQ8: útil quando há dúvida diagnóstica a ausência desses alelos exclui a doença com alta segurança.
Intolerância à lactose: mais simples, mas também precisa de diagnóstico
A intolerância à lactose ocorre quando há deficiência da enzima lactase, responsável por digerir o açúcar do leite. A lactose não digerida chega ao cólon, onde é fermentada pelas bactérias, causando gases, distensão, diarreia e cólica tipicamente entre 30 minutos e 2 horas após o consumo de laticínios.
O diagnóstico pode ser feito pelo teste respiratório de hidrogênio com lactose ou pela resposta à restrição alimentar dirigida. A maioria das pessoas com intolerância à lactose não precisa eliminar completamente os laticínios consegue tolerar quantidades variáveis, especialmente de queijos curados e iogurte, que têm menor teor de lactose.
O problema da autoexclusão alimentar sem diagnóstico
Um número crescente de pessoas elimina glúten, lactose e às vezes muitos outros alimentos por conta própria, sem investigação adequada. Isso pode mascarar diagnósticos importantes (como a doença celíaca), criar deficiências nutricionais desnecessárias, encarecer a alimentação e reduzir a qualidade de vida sem que haja benefício real.
A abordagem correta é sempre: investigar primeiro, restringir depois. E, quando a restrição é necessária, orientar de forma precisa sobre o que realmente precisa ser evitado e o que não precisa.

